O serviço que vamos analisar
Vamos analisar um serviço típico de obra: “Concreto feito na obra, fck = 25 MPa (f’c ≈ 250 kg/cm²), em fundação, incluindo transporte, lançamento, adensamento (vibração) e cura”. A unidade de medida é o metro cúbico (m³), então toda a composição é feita para 1 m³.
Uma composição se estrutura sempre da mesma forma: primeiro o custo direto, que é a soma de materiais, mão de obra e equipamento/ferramentas; e depois o preço unitário, que resulta de aplicar sobre o custo direto os percentuais de custos indiretos, financiamento e lucro. Vamos parte por parte.
1. Materiais
Cada material é calculado multiplicando a quantidade necessária por metro cúbico (já com seu percentual de perda) pelo custo unitário. Para 1 m³ de concreto fck = 25 dosado na obra:
- Cimento: 7,00 sacos de 50 kg × R$ 215,00 = R$ 1.505,00
- Areia: 0,520 m³ × R$ 380,00 = R$ 197,60
- Brita 3/4": 0,680 m³ × R$ 420,00 = R$ 285,60
- Água: 0,220 m³ × R$ 40,00 = R$ 8,80
- Subtotal de materiais = R$ 1.997,00 por m³
2. Mão de obra
A mão de obra não é cotada por trabalhador isolado, e sim por equipe e produtividade. Primeiro soma-se o custo por jornada da equipe (usando o custo com encargos, ou seja, o salário-base multiplicado pelo fator de encargos sociais, que inclui benefícios, encargos sociais e trabalhistas, 13º, etc.). Depois divide-se pela produtividade: quantos m³ essa equipe produz em uma jornada.
Equipe “concretagem na obra”, custo por jornada (8 h):
- 1 pedreiro: R$ 650,00 × fator de encargos sociais 1,55 = R$ 1.007,50
- 2 serventes: 2 × R$ 480,00 × 1,55 = R$ 1.488,00
- Custo total da equipe por jornada = R$ 2.495,50
3. Mão de obra: aplicar a produtividade
A equipe anterior tem uma produtividade de 4,00 m³ por jornada (quanto concreto conseguem misturar, transportar, lançar e vibrar em um dia). O custo de mão de obra por m³ é o custo da equipe dividido por essa produtividade:
Mão de obra por m³ = R$ 2.495,50 ÷ 4,00 m³ = R$ 623,88 por m³.
A produtividade é o dado que mais move o preço: se a equipe rendesse 3 m³ em vez de 4, a mão de obra subiria para R$ 831,83/m³. Por isso convém apoiar-se em produtividades reais de obras anteriores, não em suposições.
4. Equipamento e ferramentas
Aqui entra o equipamento usado (betoneira, vibrador) mais um percentual de ferramentas manuais. O equipamento também é calculado por custo horário ÷ produtividade, ou como aluguel por jornada ÷ produtividade.
- Betoneira de 1 saco: aluguel R$ 450,00/jornada ÷ 4,00 m³ = R$ 112,50 por m³
- Vibrador de concreto: aluguel R$ 280,00/jornada ÷ 4,00 m³ = R$ 70,00 por m³
- Ferramentas manuais: 3% da mão de obra = 0,03 × R$ 623,88 = R$ 18,72 por m³
- Subtotal de equipamento e ferramentas = R$ 201,22 por m³
5. Custo direto e preço unitário
O custo direto é a soma dos três blocos anteriores:
Materiais R$ 1.997,00 + Mão de obra R$ 623,88 + Equipamento e ferramentas R$ 201,22 = custo direto R$ 2.822,10 por m³.
Sobre esse custo direto aplicam-se, em cascata, os acréscimos que convertem o custo em preço de venda. Com 15% de custos indiretos, 2% de financiamento e 10% de lucro:
- Custo direto: R$ 2.822,10
- Custos indiretos (15%): R$ 2.822,10 × 1,15 = R$ 3.245,42
- Financiamento (2%): R$ 3.245,42 × 1,02 = R$ 3.310,32
- Lucro (10%): R$ 3.310,32 × 1,10 = R$ 3.641,36
- Preço unitário ≈ R$ 3.641,36 por m³
Como ler o resultado
O preço unitário final (R$ 3.641,36/m³) equivale ao custo direto multiplicado por um fator de 1,2903 (1,15 × 1,02 × 1,10). Esse fator —o sobrecusto— é o que agrupa custos indiretos, financiamento e lucro; vê-lo separado permite auditar cada componente.
Esse mesmo esquema —materiais + mão de obra + equipamento, depois custos indiretos, financiamento e lucro— vale para qualquer serviço: um m² de parede de alvenaria, um metro linear de pilar ou uma peça de caixa de inspeção. Mudam os insumos, as produtividades e as equipes, mas a estrutura da composição é idêntica.